As filosofia políticas
A noção de justiça fora,
inicialmente, elaborada em termos míticos com base em três figuras principais:
- thémis, a lei divina trazida pela
deusa Thémis, que institui a ordem do Universo;
- kósmos, a ordem universal
estabelecida pela lei divina;
- E diké, a justiça que a deusa Diké
institui entre as coisas e entre os homens, no respeito as leis divinas e à
ordem cósmica.
A ideia de justiça
A ideia de justiça se refere,
portanto, a uma ordem divina e natural, que regula, julga e pune as ações das
coisas e dos seres humanos.
A justiça é a lei e a ordem do
mundo, isto é, da natureza ou physis. Lei (nómos), natureza (physis)
e a ordem (kósmos) constituem assim o campo da ideia de justiça.
Política x mito
A invenção da política exigiu que
as explicações míticas fossem afastadas – thémis e diké deixaram de ser vistas
como duas deusas que impunham ordem e leis ao mundo e aos seres humanos.
Justo é o que segue a ordem
natural e respeita a lei natural.
Posição dos sofistas
Para os sofistas, a polis nasce
por convenção entre os seres humanos quando percebem que lhes é mais útil a
vida em comum do que em isolamento. Convencionam regras de convivência que se
tornam leis, nomos. A justiça é o consenso quanto às leis e a finalidade da
política é criar e preservar esse consenso.
A finalidade da política era a
justiça entendida como concórdia, conseguida na discussão pública de opiniões e
interesses contrários. O debate dos opostos, a exposição persuasiva dos
argumentos antagônicos, deviam levar à vitória do interesse mais bem
argumentado, aprovado pelo voto da maioria.
Posição de Platão
Para Platão, os seres humanos e a
polis possuem a mesma estrutura. Os humanos são dotados de três almas ou três
princípios de atividade: a alma concupiscente ou desejante (situada no ventre),
que busca satisfação dos apetites do corpo, tanto os necessários à
sobrevivência, quanto os que, simplesmente, causam prazer; a alma irascível ou
colérica (situada no peito), que defende o corpo contra as agressões do meio
ambiente e de outros humanos, reagindo à dor na proteção de nossa vida; e a
alma racional ou intelectual (situada na cabeça), que se dedica ao
conhecimento, tanto sob a forma de percepções e opiniões vindas da experiência,
quanto sob a forma de ideias verdadeiras contempladas pelo puro pensamento.
Também a polis possui uma
estrutura tripartite, formada por três classes sociais: a classe econômica dos
proprietários de terra, artesãos e comerciantes, que garante a sobrevivência
material da cidade; a classe militar dos guerreiros, responsável pela defesa da
cidade; e a classe dos magistrados, que garante o governo da cidade sob as leis.
Um homem, diz Platão, é injusto
quando a alma concupiscente (os apetites e prazeres) é mais forte do que as
outras duas, dominando-as. Também é injusto quando a alma irascível (a
agressividade) é mais poderosa do que a racional, dominando-a. O que é, pois, o
homem justo? Aquele cuja alma racional (pensamento e vontade) é mais forte do
que as outras duas almas, impondo à concupiscente a virtude da temperança ou
moderação, e à irascível, a virtude da coragem, que deve controlar a
concupiscência. O homem justo é o homem virtuoso; a virtude, domínio racional
sobre o desejo e a cólera. A justiça ética é a hierarquia das almas, a superior
dominando as inferiores.
Posição de Aristóteles
Para determinar o que é a
justiça, diz ele, precisamos distinguir dois tipos de bens: os partilháveis e
os participáveis. Um bem é partilhável quando é uma quantidade que pode ser
dividida e distribuída – a riqueza é um bem partilhável. Um bem é participável
quando é uma qualidade indivisível, que não pode ser dividida nem distribuída,
podendo apenas ser participada – o poder político é um bem participável.
Existem, pois, dois tipos de justiça na Cidade: a distributiva, referente aos
bens econômicos; e a participativa, referente ao poder político. A Cidade justa
saberá distingui-las e realizar ambas.
Ética e política
Se a política tem como finalidade
a vida justa e feliz, isto é, a vida propriamente humana digna de seres livres,
então é inseparável da ética.
Platão identificara a justiça no
indivíduo e a justiça na polis. Aristóteles subordina o bem do indivíduo ao Bem
Supremo da polis. Esse vínculo interno entre ética e política significava que
as qualidades das leis e do poder dependiam das qualidades morais dos cidadãos
e vice-versa, das qualidades da Cidade dependiam as virtudes dos cidadãos.
Somente na Cidade boa e justa os homens poderiam ser bons e justos; e somente
homens bons e justos são capazes de instituir uma Cidade boa e justa.
Romanos: a construção do
príncipe
Os pensadores romanos viram-se
entre duas teorias: a platônica, que pretendia chegar à política legítima e
justa educando virtuosamente os governantes; e a aristotélica, que pretendia
chegar à política legítima e justa propondo qualidades positivas para as instituições
da Cidade, das quais dependiam as virtudes dos cidadãos. Entre as duas, os
romanos escolheram a platônica, mas tenderam a dar menor importância à
organização política da sociedade (as três classes platônicas) e maior
importância à formação do príncipe virtuoso.
O príncipe, como todo ser humano,
é passional e racional, porém, diferentemente dos outros humanos, não poderá
ceder às paixões, mas apenas à razão. Por isso, deve ser educado para possuir
um conjunto de virtudes que são próprias do governante justo, ou seja, as
virtudes principescas. O verdadeiro vir (varão, em latim) possui três séries de
virtudes ou qualidades morais. A primeira delas é comum a todo homem virtuoso,
sendo constituída pelas quatro virtudes cardeais: sabedoria ou prudência,
justiça ou eqüidade, coragem e temperança ou moderação. A segunda série
constitui o conjunto das virtudes propriamente principescas: honradez ou
disposição para manter os princípios em todas as circunstâncias, magnanimidade
ou clemência, isto é, capacidade para dar punição justa e para perdoar, e
liberalidade, isto é, disposição para colocar sua riqueza a serviço do povo.
Finalmente, a terceira série de virtudes refere-se aos objetivos que devem ser
almejados pelo príncipe virtuoso: honra, glória e fama.
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